Saiba um pouco mais sobre Silas que depois de mais de 20 anos dentro de campo, continua na ativa, agora fora de campo.
 
TheGoal.com/Brasil: Silas, você está entrando numa fase difícil, o momento de parar. Para a  maioria dos atletas é uma coisa horrível. Como você está se sentindo?
Silas: Na realidade estou surpreso e ao mesmo tempo agradecido a Deus por não estar sentindo que parei de jogar futebol. Acredito que a gente deve dar o máximo quando está ali, e eu já vinha amadurecendo esta idéia há algum tempo, primeiro por causa do ministério e depois por causa dos meus filhos que estão crescendo e precisam do pai um pouco mais perto neste momento de definição na vida.

TGB: Qual a importância da família na sua carreira e na sua estabilidade como profissional?
Silas: Acredito que depois de Deus, a família vem em primeiro lugar. Sempre aprendi valores que trago comigo até hoje, que me foram passados pelo meu pai. Valores como: a palavra de honra,  coisa que está fora de moda; a oração: levantar orando e deitar orando; ter um coração sempre agradecido a Deus por cada vitória na vida, seja num jogo ou numa prova na escola, num negócio. Isso vai passando de geração pra geração; é o que eu tento passar para os meus filhos. São heranças que a gente não pode deixar de lado por causa dos modismos. Minha família tem sido tudo na minha vida. Minha esposa tem sido suporte para minha carreira; ela sacrificou 15 anos de sua vida para estar ao meu lado, viajando por países onde nem o idioma sabia falar direito. Acredito que só estou retribuindo agora todo o esforço que eles fizeram para me acompanhar. Estou feliz porque um dos meus projetos de vida para os próximos 10 anos é encaminhar os meus 2 filhos e a filha até à faculdade, e espero não desviar deste caminho até conseguir.

TGB: Você se sente realizado?
Silas: Em parte sim porque a profissão de jogador de futebol está terminando, e esta etapa da minha vida, que durou 21 anos, fez com que eu me sentisse totalmente realizado. Acho que não ter sido campeão do mundo como profissional foi o único dos meus sonhos não realizado, mas isso não é peso. Fui campeão do mundo de juniores. Não é a mesma coisa, mas é um consolo, e naquele momento, talvez, tenha tido a mesma importância que se eu tivesse sido campeão adulto. Agora sei que há muita coisa para ser feita no ministério Atletas de Cristo e com os atletas de Cristo. Chegou o tempo certo de me dedicar ao máximo para ajudar outros atletas a chegarem ao final de suas carreiras podendo dizer o mesmo que estou dizendo hoje.

TGB: Você jogou em vários países. De todos os lugares por onde você passou, em qual deles você acha que exerceu maior influência na cultura local?
Silas: Eu acredito que dois lugares tiveram mudanças claras. O primeiro foi Portugal, pois Atletas de Cristo era totalmente novo ali. Nós chegamos com uma mensagem clara, definida, sem medo porque era aquilo que a gente vivia. E o povo português ficou realmente "chocado", no bom sentido. Para eles foi bom ver atletas que participaram da Seleção Brasileira passando valores eternos e duradouros. Depois chegou o João Leite e ele fez um trabalho que é lembrado por todo mundo até hoje. O outro lugar foi a Argentina, onde cheguei em 94 e começamos o trabalho de Atletas de Cristo, que é forte até hoje, um marco na história da Argentina. Tivemos um programa de televisão durante 6 anos. Quase todas as cidades argentinas têm um Grupo de Atletas de Cristo hoje, e, de lá, para o Uruguai, para o Peru... Saber que, por obedecermos à vontade de Deus, Ele nos deu a oportunidade de sermos o canal através de quem Ele faz a Sua obra, me faz muito feliz. "Fui a bola da vez" na Argentina para levar a mensagem. Atletas de Cristo é uma realidade e esta é uma alegria muito grande que vou levar por toda a minha vida.

TGB: Qual o seu relacionamento com os Grupos que você ajudou a fundar?
Silas: Tenho mantido contato diretamente, principalmente na Argentina, onde ainda presido o trabalho. O pessoal que lidera o trabalho sempre me conta como as coisas estão caminhando e como estão os muitos jogadores que começaram com a gente nos juvenis.

TGB: Você viu como o esporte pode ser um veículo para a mensagem do Evangelho muito claro na sua carreira: através do seu testemunho milhares de pessoas se converteram. Como este grande meio de comunicação do Evangelho vai fazer parte da sua vida daqui pra frente?
Silas: O futebol foi o amor da minha vida depois de Deus e da minha mulher. Sempre joguei futebol por amor, nunca coloquei o dinheiro como condição para ir para esse ou para aquele time. Então, a forma de continuar transmitindo a mensagem do Evangelho é estando ligado ao futebol, empresariando jogadores, ajudando-os no cuidado com suas carreiras, e, principalmente, na vida espiritual, no aconselhamento familiar, como empregado, no banco de reservas, com dinheiro, sem dinheiro, com a imprensa, no que falar, quando e como falar. Estar ligado ao futebol é a melhor maneira de poder seguir proclamando o Evangelho de Cristo.

TGB: Você sempre foi um bom exemplo de procedimento no meio esportivo. Agora você está parando. Como vai ficar o evangelismo através do esporte sem o Silas?
Silas: Acredito que estou saindo de dentro do campo, mas que as coisas vão mudar para melhor, porque vou poder me envolver ainda mais; acredito que Deus vai abrir portas,  preparar o caminho. E a minha luta incessante agora será passar para outros atletas a mesma visão que tive durante toda a minha vida: que aproveitem cada momento com o objetivo de alcançar vidas. Ganhei campeonatos importantíssimos no Brasil e fora dele, mas nenhum troféu é tão importante pra mim como quando  vejo um jogador conturbado, com a vida familiar quebrada, acertando com sua esposa, com Deus. Eu acho que não tem prêmio maior do que este. Você sente no fundo do coração aquele orgulho e aquela alegria de estar fazendo uma coisa que realmente tem valor. Os campeonatos passam, os troféus enferrujam, e você cai no esquecimento, mas aquelas pessoas a quem você ajudou através do poder de Deus são inesquecíveis. Vou sair de campo, mas fora dele, o cristão não vai parar. Vocês vão me ver muito por aí falando do Evangelho.

TGB: Fale do projeto de formar uma nova geração de atletas e de atletas cristãos, do Romarinho e de outros em cujas carreiras você tem investido.
Silas: Tenho investido na carreira de alguns meninos. Praticamente adotei o Nivaldo, conhecido como Romarinho, e o Wellington, conhecido como Gabiru, quando eles tinham 11 anos de idade. Tenho procurado trabalhar com eles aqui perto para poder levá-los à igreja, e para poder instruí-los na parte espiritual e ensinar-lhes os valores de Deus. Eles são bons jogadores; se eles vão ser profissionais ou não, não sei. Não me interessa, porque uma vez que eles estejam no centro da vontade de Deus, Ele vai lhes dar o que for melhor. Eles têm 13 anos agora, daqui a 6 ou 7 anos você verá novos Robinhos, novos Diegos, Kakás aparecendo com uma base e com um exemplo a ser seguido: Jesus.  Esses meninos terão uma chance muito grande de não se perderem; e de que o futebol não venha a virar a cabeça deles. Trabalhar com estes meninos tem como objetivo que eles possam, lá na frente, dizer: "mais que um jogador de futebol; transformei-me num homem de Deus, numa pessoa digna, numa pessoa honesta, pessoa de respeito." Acho que isso já é trabalho para mais uns 30 anos!

TGB: Qual a principal diferença do Silas de hoje para o Silas dos tempos do São Paulo?
Silas: Fora a parte física, logicamente,  cabelo mais branco e mais curto. Uma coisa do Silas de 18 anos permanece no Silas de 38 anos: a paixão pelas coisas de Deus. Isso não mudou. Pelo contrário, aumentou com o passar dos anos. Tem muito valor ouvir das pessoas que durante a minha carreira nunca ninguém me viu  fazendo coisa errada. Não que eu seja santo. Mas o poder que Jesus tem pra transformar a vida de alguém, transformar uma pessoa simples numa pessoa digna, de quem as outras podem dizer: "este cara atravessou a carreira de um jeito...
Eu gostaria que meu filho fosse igual". Tenho orgulho, porque esta não é uma coisa fácil de se conseguir, mas é uma coisa possível se você está com Deus. Sempre digo para os atletas: "É possível você ter uma mulher só; é possível você viver livre de drogas e de bebidas. Eu consegui, você também pode conseguir." A paixão pelas coisas de Deus é que me faz estar vivo.

TGB: Você acha que daqui pra frente vai ser mais fácil falar de Jesus para as pessoas, do que quando você era jogador?
Silas : Talvez agora eu não tenha tantos microfones e câmeras de televisão à disposição. Por outro lado, vou dispor de mais tempo para estar envolvido principalmente com o ministério com os atletas. Acho que vou perder numa área e ganhar em outra, porque vou estar mais próximo dos atletas, e como não tenho interesse nenhum além de ajudá-los como fui ajudado pelo Alex, pelo Johnny, por tanta gente com quem convivo há mais de vinte anos, o interesse vai ser único e exclusivo em que eles tenham uma performance melhor, e que, fora do campo, sejam homens de Deus.

TGB: Seus planos para o futuro?
Silas: No segundo semestre deste ano, quero lançar o livro que estou escrevendo com a ajuda dos atletas de Cristo, e o vídeo, com o DVD contando a história desses 21 anos de futebol. Algumas histórias são engraçadas, outras menos; o livro traz fotos, alguns depoimentos e outras coisas mais. Vou começar a fazer seminário para conhecer mais a Palavra de Deus. Vou estar envolvido com o trabalho de Atletas de Cristo de Campinas como líder e quero me preparar para poder exercer este ministério com sucesso, para que o grupo de Campinas se torne um lugar de refúgio para os atletas.

TGB: Qual foi o momento mais marcante e o mais difícil de sua carreira?
Silas: O momento mais marcante foi durante a Copa do Mundo do México, quando dei uma entrevista para o Jornal Nacional com a metade do país assistindo. O que começou como um bate papo sobre futebol, terminou como um testemunho de um atleta cristão. Muita gente está colhendo frutos daquela entrevista, mesmo 17 anos depois. Os momentos mais difíceis foram as contusões, principalmente aquela que me deixou mais de 2 anos fora dos gramados. Eu cheguei a pensar que nunca mais fosse poder jogar. Mas aquilo ali foi um trabalhar de Deus na minha vida para eu voltar depois com a bola toda na Argentina, e me tornar o melhor jogador do futebol argentino de 94 e 95. Eu não tive momentos ruins porque sempre soube que os momentos mais difíceis da minha vida, eram possibilidades para Deus desenvolver alguma coisa que estava faltando. Sei que o que vem de Deus é sempre o melhor.

TGB: Qual o seu recado para cada pessoa?
Silas: É o mesmo versículo que eu receitava quando comecei a minha carreira: Josué 1: 7, 8 e 9: "Seja forte e muito corajoso. Tome cuidado e viva de acordo com toda Lei que meu servo Moisés lhe deu. Não se desvie dela em nada e você terá sucesso em qualquer lugar para onde for. Estude esse livro dia e noite e se esforce para viver de acordo com tudo o que está escrito nele. Se fizer isso, tudo lhe correrá bem, e você terá sucesso. Lembre da minha ordem: 'Seja forte e corajoso'! Não fique desanimado, nem tenha medo, porque eu, o Senhor, seu  Deus, estarei com você em qualquer lugar para onde você for!"

Entrevista concedida a Alex Dias Ribeiro e compilada por Christina Domene